P&G, Cargill e Super Nosso relatam como estão enfrentando a crise do novo coronavírus

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Qual o impacto do coronavírus no e-commerce? De que maneira a pandemia está afetando as cadeias de abastecimento? Como ficarão a indústria e o varejo após tudo isso passar? Certamente não são perguntas fáceis de serem respondidas, mas para tentar esclarecer essas e outras questões, a SA Varejo realizou um webinar com um time repleto de especialistas. 

O tema da conversa foi “Como supermercados e indústrias estão enfrentando os desafios da crise do coronavírus”. O debate teve um pouco mais de uma hora de duração e teve como mediador o CEO da SA Varejo, Sérgio Alvim.

O webinar teve os seguintes convidados: 

  • Andre Felicissimo, Vice-Presidente da P&G Brasil; 
  • Augusto Lemos, Diretor-Geral da Cargill Foods na América do Sul; 
  • João Pereira, Vice-Presidente Comercial e de Marketing do Grupo Pereira; 
  • Renato Giarola, CCO do Dia Brasil; 
  • Euler Nejm, CEO do grupo Super Nosso.

Como o tema foi muito interessante, resolvemos extrair os principais insights desse bate-papo incrível. Confira!

Quais medidas foram tomadas para dar segurança aos clientes e funcionários?

 “A corrida para cuidar das pessoas, para ter segurança dos funcionários da loja e dos clientes foi o item número um da adaptação.” 

Renato Giarola, CCO do Dia Brasil

O Covid-19 gerou uma crise multifacetada. Os desafios são muitos, mas durante a conversa um dos pontos mais enfatizados foi a necessidade de criar um ambiente seguro para clientes e funcionários. 

Para Renato Giarola, CCO do Dia Brasil, “a corrida para cuidar das pessoas, para ter segurança dos funcionários da loja e dos clientes foi o item número um da adaptação.” Entre os grandes obstáculos que ele e sua equipe enfrentaram, Giarola destaca a falta de álcool em gel e de máscaras durante as primeiras semanas da crise. “Não existia no mercado”.

Essa mesma preocupação foi a do Diretor-Geral da Cargill Foods na América do Sul, Augusto Lemos. Ele afirma que a empresa realizou todas as adequações de proteção nas fábricas e no sistema logístico. “O importante é que o time está de prontidão e tomando medidas para manter a máquina rodando”.

Quais foram os impactos do coronavírus no e-commerce?

“No e-commerce, a gente estava atendendo 300 pedidos por dia na região metropolitana de Belo Horizonte. De repente, foi para 1300 pedidos por dia.”

Euler Nejm, CEO do Grupo Super Nosso

Além da segurança, a logística para atender os picos de demanda foi outra questão que exigiu muito dos gestores. O CEO do Grupo Super Nosso, Euler Nejm, afirmou que, com o coronavírus no e-commerce “a gente estava atendendo 300 pedidos por dia na região metropolitana de Belo Horizonte. De repente, foi para 1300 pedidos por dia”. 

Como consequência, Euler relatou um atraso de até 7 dias na entrega dos pedidos ao consumidor final. O André Felicíssimo, vice-presidente de vendas da P&G Brasil, complementou: “na Europa, muitos varejos inclusive fecharam os seus sites direto ao consumidor porque não tiveram a capacidade de atender a demanda”. 

Esse surto de demanda, porém, se mostrou instável. No Dia, Giarola afirmou que “teve um boom na terceira semana de março na loja”, com destaque para os produtos de limpeza. Mas na última semana esse ritmo diminuiu: “Morreu, o fluxo geral de lojas sumiu. A gente fica tentando entender o que vai acontecer”.

No início de abril, o varejo teve outro pico de vendas, devido ao pagamento de salários. Logo após, voltou a um patamar mais estável: tanto no Dia quanto no Super Nosso houve uma pequena redução no número de clientes, mas um aumento no valor do ticket médio. “No final, eles vão se equilibrando”, disse Giarola. 

Como o comportamento do consumidor está sendo afetado pela pandemia?

Por ser uma multinacional, a P&G pôde observar em nível global alguns padrões de comportamento do consumidor que surgiram em meio a toda essa instabilidade. De acordo com Felicissimo, “uma das coisas que a gente aprendeu é que tem sido um comportamento muito parecido do consumidor pelo mundo inteiro. Ele está muito globalizado”. E um desses padrões de comportamento está relacionado justamente aos picos de demanda. 

Felicissimo apontou ainda para a existência de quatro ondas de demanda. A primeira acontece quando são divulgados mais casos sobre a doença e os consumidores começam a se preocupar em estocar alimentos, limpeza e produtos de higiene. Um exemplo disso foi a disputa acirrada por papel higiênico na Austrália, após circularem pelo país notícias dos impactos do coronavírus na Europa.

“A segunda onda é quando o governo começa a fazer algumas restrições. A terceira quando instala-se o lockdown horizontal, forçado. E a quarta, quando as pessoas descobrem que esse lockdown vai existir por um longo período.” Ele ressalva, porém, que cada país sempre terá suas particularidades.

Confira: Coronavírus tem feito consumidores de CPG mudarem seus hábitos

De que modo a crise econômica está prejudicando as empresas? E os consumidores? 

As pressões de custos são fontes de preocupação para os gestores. Sérgio Alvim, CEO da SA Varejo, resumiu: “com o dólar em um patamar mais alto, em torno de R$5,20, a margem de lucro diminui para todos”. Euler, do Super Nosso, reconhece que enfrenta dificuldade para repassar preços. “Os consumidores estão mais sensíveis nesse momento, é natural”.

“Agora é o momento de ajudar o produto local, porque eles têm produtos importantes dentro do supermercado. Uma alface é tão importante para o supermercado quanto um óleo de soja ou uma fralda.” 

 João Pereira, Vice-Presidente Comercial do Grupo Pereira

A perspectiva também não é favorável no cenário pós-crise. Para João Pereira, vice-presidente comercial do Grupo Pereira, o retorno também apresentará muitos desafios. “É um momento bem complicado, cheio de incertezas”. Ele acredita que faltará dinheiro no mercado e, por isso, a volta deve ser lenta e gradual. “A classe B vai ter uma perda de renda. A classe C dá mais um passo para trás. Isso é muito ruim.”

Pereira também defendeu um maior apoio ao pequeno produtor local. “Agora é o momento de ajudar esse pessoal, porque esse pessoal tem produtos importantes dentro do supermercado. Uma alface é tão importante para o supermercado quanto um óleo de soja ou uma fralda.” 

Quais mudanças ocorridas em virtude do Covid-19 devem permanecer após a crise?

Para se adaptarem à realidade imposta pelo coronavírus, as indústrias e o varejo tiveram que realizar muitas transformações em pouquíssimo tempo – nas palavras de Euler, “quem sobrevive são os flexíveis, os adaptáveis”. 

Contudo, algumas das principais mudanças, como as reuniões em home office por meio de plataformas como o Zoom e o Google Hangouts, se mostraram mais viáveis do que os gestores imaginavam antes.

Para o Dia Brasil, embora o home office já seja uma realidade na indústria há muitos anos, ele encara o varejo como mais “old school”, muito acostumado a ter reuniões presenciais e com fornecedores. “Mas em um dia, todo mundo ficou de home office. Agora, a gente já está falando de não voltar mais.”

Ao contrário do que pensava, ele sente que trabalhar em casa aumentou a produtividade do seu time, uma vez que “acabou a hora do café, acabou a conversa do corredor, acabou deslocamento. Para fazer uma reunião com toda minha equipe, eu precisava de um auditório com duzentas pessoas. A gente não tinha um espaço assim, tinha que alugar, então fazíamos de 3 em 3 meses. Eu faço agora toda semana”.

“Para fazer uma reunião com toda minha equipe, eu precisava de um auditório com duzentas pessoas. A gente não tinha um espaço assim, tinha que alugar, então fazíamos de 3 em 3 meses. Eu faço agora toda semana”.

 Renato Giarola, CCO do Dia Brasil

A Cargill compartilhou uma experiência semelhante. “Durante esse período, nós também estamos sendo mais objetivos nas relações comerciais. Estamos chegando a negócios de maneira mais rápida, mantendo um olhar na loja para não deixá-la desabastecida e todo mundo trabalhando junto para destravar a cadeia logística”.

Como está a relação entre indústria e varejo durante o período de pandemia? 

No geral, os gestores relataram que já sentiram um aprofundamento da relação varejo-indústria. “Recebi muitos elogios por parte do nosso time comercial e logística sobre o altíssimo nível de colaboração com as redes”, disse Augusto Lemos, da Cargill.

“Qualquer crise é uma oportunidade para aprender muito. O maior aprendizado que eu tive até agora é como o varejo e a indústria conseguiram trabalhar juntos na missão de cuidar e abastecer.” 

Andre Felicissimo, Vice-Presidente de Vendas da P&G Brasil.

Para a P&G, manter viva a cadeia de abastecimento é tão importante para a população quanto o sistema de saúde, um desafio que, felizmente, está sendo superado. “Qualquer crise é uma oportunidade para aprender muito. O maior aprendizado que eu tive até agora é como o varejo e a indústria conseguiram trabalhar juntos na missão de cuidar e abastecer”, ressalta. 

Euler Nejm, do Super Nosso, acredita que as crises acabam amadurecendo as relações, algo essencial para enfrentar essa dificuldade de atingir um nível ideal de oferta e demanda durante a pandemia. João Pereira, do Grupo Pereira, complementa que as parceiras mais consolidadas podem trazer novos modos de abastecimento que aumentem a produtividade, uma palavra que a P&G também enfatizou bastante em sua fala. 

Já André Felicissimo, da P&G, afirmou que o uso de dados e o compartilhamento destes com parceiros de confiança é essencial para identificar novas tendências e melhorar o atendimento. Para ele, essa seria a hora de escolher bem quem são esses parceiros.

Augusto Lemos, da Cargill Foods, também acredita que o futuro aponta para essas mudanças, baseadas no uso de dados e na atuação mais ágil, remota e digital. “Mais informações inteligentes saindo de bases de dados cada vez mais disponíveis, inteligência artificial apoiando nas tendências. É uma transformação que nós temos que acompanhar”. 

“Mais informações inteligentes saindo de bases de dados cada vez mais disponíveis, inteligência artificial apoiando nas tendências. É uma transformação que nós temos que acompanhar”. 

Augusto Lemos, Diretor-Geral da Cargill Foods na América do Sul

Quais serão os maiores desafios daqui pra frente? Como enfrentá-los?

Se o cenário está cheio de incertezas e dificuldades para as empresas que trabalham com produtos de alto giro, imagine para aquelas dos serviços não essenciais, como as do turismo e do entretenimento. No caso delas, a recessão é inevitável e, para muitas, pode até mesmo ser insuperável.

Ao longo da discussão, ficou clara a necessidade de pensar fora da caixa, colaborar bastante e trabalhar em dobro para enfrentar os impactos do coronavírus no e-commerce, na indústria e no varejo.

Para o e-commerce, o maior desafio é ter a logística para enfrentar o excesso de demanda. Já o setor da indústria, essencial para garantir o abastecimento, deve se preocupar muito com a segurança no ambiente de trabalho e o transporte dos produtos até o varejo. O varejo, por sua vez, precisa estar atento a atuação dos governos, que estão impondo restrições às aglomerações de consumidores.

“Essa crise é como dirigir à noite, em uma estrada deserta, com o farol baixo. É difícil prever. Eu não vejo a hora de voltar à normalidade do mercado. Mesmo com muitas mudanças, mas todo o comércio estar aberto e a gente voltar à alegria, né?”, resumiu o grupo Super Nosso.

Esses foram os principais insights que o webinar da SA Varejo apresentou sobre os desafios que os supermercadistas e indústrias estão enfrentando diante do novo coronavírus. Se você quiser conferir o webinar completo, é só clicar no vídeo abaixo:

Estamos acompanhando de perto o impacto do Covid-19 no e-commerce. Por isso, criamos uma série de conteúdos especiais para você acompanhar esse momento. Confira nosso guia especial e fique por dentro de tudo! 

Publicitário pela UFMG, baiano com orgulho e apaixonado por cinema. Atualmente é graduando de economia e adora um bom papo sobre política.

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