Como Ypê e Ambev adaptaram suas operações diante do coronavírus?

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Para entender como os maiores gestores da indústria e do varejo nacional estão enfrentando o coronavírus, a SA Varejo está realizando webinars semanais com grandes players do mercado. A segunda edição do bate-papo, mediado pelo CEO da SA Varejo, Sérgio Alvim, foi realizado no dia 16 de abril de 2020. 

Participaram do webinar:

  • Caio Lira, Vice-Presidente de Off-Trade da Ambev; 
  • Gabriela Pontin, Vice-Presidente Comercial e de Marketing da Ypê; 
  • André Nassar, CEO do Giga Atacado; 
  • Alexandre Poni, Sócio-Fundador da Rede Verdemar e Presidente da Associação Mineira de Supermercados.

O debate apresentou conteúdos enriquecedores e você pode assistí-lo na íntegra pelo canal da SA Varejo no YouTube. Neste texto, nós selecionamos os melhores momentos da discussão e fizemos um grande resumo. 

Confira também: P&G, Cargill e Super Nosso relatam como estão enfrentando a crise do novo coronavírus.

Quais mudanças foram necessárias para adaptar as operações das indústrias ao coronavírus?

A pandemia do coronavírus exige uma atuação dupla das indústrias e dos varejos nos setores essenciais. Primeiro, é necessário se adequar às novas demandas do mercado e dos governos, que exigem mais segurança e higiene. 

Além disso, é muito importante também não diminuir o ritmo das atividades, em especial nas indústrias, garantindo assim o abastecimento da cadeia logística. Para cumprir esses dois objetivos, a Ypê e a Ambev precisaram realizar adaptações profundas.

“A gente transformou uma linha de produção de detergente concentrado para louças em uma linha de produção de álcool gel em apenas 72 horas. Não tínhamos nem insumo para isso.”

Gabriela Pontin, Vice-Presidente Comercial e de Marketing da Ypê

Por ser uma indústria no setor de limpeza e higiene, essa mudança foi ainda mais essencial para a Ypê. “A gente transformou uma linha de produção de detergente concentrado para louças em uma linha de produção de álcool gel em apenas 72 horas. Não tínhamos nem insumo para isso”, relatou. 

De acordo com a empresa, a produção de álcool em gel, que atingiu um pico de um milhão e meio de unidades, está sendo inteiramente doada, em especial para entidades de saúde. Além do uso de máscaras e outros equipamentos de proteção individual, a empresa está esterilizando e sanitizando a fábrica de 2 em 2 dias

A Ypê também está realizando doações de álcool em gel e de refeições para os caminhoneiros, sejam eles da companhia ou não. “Sabemos das dificuldades que os caminhoneiros estão encontrando nas estradas”. Devido à pandemia, as estradas estão vazias e muitos estabelecimentos fecharam. 

No caso da Ambev, “os processos de higienização já eram rígidos e, agora, ficaram ainda mais”. A empresa também converteu três de suas cervejarias para fabricar álcool em gel e, recentemente, adaptou uma linha de produção para fabricar máscaras também. 

Doações já foram feitas para hospitais em todos os estados do Brasil. “Serão mais de 3 milhões de máscaras produzidas para cobrir toda a comunidade de saúde”, disse a empresa.

Vocês já identificam mudanças nos hábitos do consumidor? 

Embora a incerteza ainda seja grande, os gestores já conseguem reconhecer alguns padrões de comportamento do consumidor. No caso dos varejos, a frequência diminuiu após o surto de demanda no início da pandemia, afinal as pessoas estão evitando sair de casa. Por outro lado, essa frequência menor aumentou o tamanho das compras, o que refletiu em um ticket médio maior. 

Pela experiência própria do Giga Atacado, no início os consumidores tinham muita insegurança sobre o que iria acontecer, portanto criaram uma tendência a estocar produtos. Isso fez com que as primeiras semanas fossem mais intensas em questão de vendas. 

“Teve uma discussão de clientes por álcool em gel em uma loja do Giga que rodou o mundo inteiro. A gente tentou ao máximo evitar esse tipo de coisa, mas aconteceu mesmo assim.”

André Nasser, CEO do Giga Atacado

A rede impôs restrições à compra em grande quantidade de alguns produtos específicos, como o álcool em gel, mas isso não foi o suficiente. “Teve uma discussão de clientes por álcool em gel em uma loja do Giga que rodou o mundo inteiro. A gente tentou ao máximo evitar esse tipo de coisa, mas aconteceu mesmo assim”, relatou o CEO do Giga, André Nasser.

Por atender supermercados de todos os tipos, dos pequenos até os gigantes, a Ambev tem uma visão bem ampla da demanda no varejo. Pelo que a empresa observou até agora, houve “um aumento muito representativo do varejo de bairro, o varejo pequeno”. Isso é muito importante, pois o pequeno comerciante é o mais afetado por problemas no fluxo de caixa.

Já o Verdemar afirma que, apesar das boas vendas, um dos seus setores carro-chefe, que era a padaria, sofreu um baque muito grande. Um dos principais motivos para isso é porque o cliente de padaria quer um produto fresco, feito no dia. 

Assim, o comportamento dominante no momento, que é de fazer compras maiores e menos frequentes, não encaixa com o hábito antigo de comprar o “pão quentinho” todo dia. “É uma surpresa atrás da outra. Estamos tentando entender”, disse o sócio-fundador do Verdemar, Alexandre Poni. 

Para compensar as vendas na padaria, eles estão adaptando o mix de produtos da rede. Um dos investimentos no momento tem sido nos congelados, bens de maior duração e que facilitam a vida do cliente. 

Eles também começaram a disponibilizar para os clientes máscaras faciais. “Vendemos 3000 em 3 dias. Hoje está chegando mais 5 mil  e tem 5 mil para chegar amanhã. É uma oportunidade”, afirmou. 

E para o pós-crise, como vocês enxergam esse comportamento do consumidor?

Embora algumas mudanças sejam temporárias, muitos hábitos que mudaram devem permanecer após o fim da quarentena. Na visão dos gestores, entre as muitas mudanças, o menor poder aquisitivo dos consumidores é uma das mais importantes.

“A retomada pós-lockdown deve ser um processo gradativo. De retornar a confiança de ir às ruas, de consumir fora de casa, afinal, vamos ter impactos econômicos nas famílias. O mix da loja será influenciado pelo bolso do consumidor”

Caio Lira, Vice-Presidente de Off-Trade da Ambev

Para Caio Lira, diretor executivo na Ambev, “a retomada pós-lockdown deve ser um processo gradativo. De retornar a confiança de ir às ruas, de consumir fora de casa, afinal, vamos ter impactos econômicos nas famílias. O mix da loja será influenciado pelo bolso do consumidor”. Ele ressalva, porém, que esse impacto financeiro deve diminuir com o passar do tempo.

André Nasser, CEO do Giga Atacado, acredita que a digitalização dos negócios será um legado. Isso principalmente para as pessoas de grupo de risco, que devem evitar aglomerações por um tempo. “Quando os governos retirarem as barreiras de distanciamento social, eu tenho dúvidas se pessoas em vulnerabilidade irão para festas de casamento, estádios de futebol”, afirma.

O e-commerce tem crescido muito devido ao distanciamento social. Esse crescimento deve continuar após a crise?

Um dos maiores investimentos na indústria e no varejo tem sido a área de e-commerce. Desde o início do ano, a Ambev conta com um time dedicado para vendas online. Entre 15 de março e 15 de abril, as vendas por e-commerce da empresa quintuplicaram, ou seja, cresceram cinco vezes em apenas um mês.

“Algumas pessoas, que não usavam o e-commerce antes da crise e tiveram que usar agora, vão continuar comprando certos produtos online.”

Alexandre Poni, CEO do Verdemar e Presidente da AMIS

O Verdemar, que possui uma proposta diferente, de prezar muito pela experiência presencial em loja, também estreará sua plataforma de vendas online. “Em 15 dias nosso e-commerce está no ar. É um sentimento nosso de que algumas pessoas, que não usavam o e-commerce antes da crise e tiveram que usar agora, vão continuar comprando pelo e-commerce”.

O Giga também tem inovado em suas operações de e-commerce, com a estréia de um projeto piloto de vendas por WhatsApp. No começo, para fins de testes, disponibilizou para entrega a venda de todos os produtos, incluindo hortifruti. A demanda foi grande e suficiente para identificar os pontos fortes e fracos da estratégia. O objetivo agora é expandir o serviço para outras lojas.

“Essa primeira loja piloto fizemos a loucura de disponibilizar todos os produtos, então se o cliente quer tomate eu estou pegando pra ele. O segundo piloto que estamos fazendo na outra loja é só mercadoria seca em caixa fechada, mais voltado para o público atacadista mesmo”, disse Nasser.

Como vocês vêem a relação varejo-indústria daqui pra frente?

A necessidade de utilizar a tecnologia, para trazer mais produtividade à relação entre o varejo e a indústria, foi unanimidade no webinar. Os gestores disseram que a maior parte do tempo é gasto realizando pedidos, deixando de lado assuntos estratégicos mais importantes.

De olho no futuro, a Ambev está utilizando da inteligência artificial para automatizar esse processo de pedidos. “A gente já tem em piloto hoje, com algumas redes de varejo em São Paulo, o Venda Certa, em que os nossos parceiros fazem os pedidos através de algoritmos inteligentes”. As informações de estoque são compartilhadas com os parceiros e todo o pedido é feito eletronicamente.

“Temos um projeto piloto com algumas redes de varejo em São Paulo em que os nossos parceiros fazem os pedidos através de algoritmos inteligentes”.

Caio Lira, Vice-Presidente de Off-Trade da Ambev

Visto que os dados sobre os estoques da empresa são informações sensíveis, a Ambev afirma que cada parceiro foi escolhido a dedo. Até o momento, porém, o resultado tem sido positivo. “A receptividade nas cinco redes-pilotos que a gente fez foi enorme e está sendo muito bacana. A gente tem previsão de fazer o rollout disso a partir de junho deste ano em um universo muito maior”. 

Com o objetivo de auxiliar o varejo e fortalecer as parcerias com o setor, a Ypê passou a produzir álcool líquido, que será doado para supermercadistas. Assim, os beneficiários no varejo poderão continuar com a operação deles e recompor uma parte das perdas financeiras que estão enfrentando.

“Essa é a nossa principal preocupação. A Ypê é uma indústria de bens de consumo que não distribui diretamente. Nós precisamos desse canal, precisamos dos supermercados, dos atacadistas, para que as coisas cheguem, para que a gente abasteça as famílias com produtos básicos”, completou Pontin.

“A Ypê é uma indústria de bens de consumo que não distribui diretamente. Nós precisamos desse canal, precisamos dos supermercados, dos atacadistas, para que as coisas cheguem, para que a gente abasteça as famílias com produtos básicos.”

Gabriela Pontin, Vice-Presidente Comercial e de Marketing da Ypê

Esse foi o nosso resumo do segundo webinar da SA Varejo. A conversa na íntegra possui mais detalhes e, mesmo depois de ler o texto, certamente ainda vale muito à pena conferir. Se quiser assistir, basta acessar o link abaixo: 

Gostou do texto? Ele faz parte da nossa série especial de conteúdos sobre os impactos do coronavírus no e-commerce. Para saber mais, clique aqui e confira!

 

Publicitário pela UFMG, baiano com orgulho e apaixonado por cinema. Atualmente é graduando de economia e adora um bom papo sobre política.

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